Luto

Falando do Luto

Quando a gente está falando do luto, a gente está falando de transformação. 
Luto é um processo que começa no dia em que uma pessoa muito importante para você foi embora da sua vida. Ela pode ter ido pela morte ou pela separação, mas uma pessoa muito importante com a qual você tem o vínculo rompido se foi. Nesse dia começa o processo de luto. O que é o processo de luto? Ele é um trajeto. É existencial não é de tempo; não é de intensidade; ele é um caminho que acontece a partir daquele dia em direção a uma reconstrução. É uma reconstrução do vínculo que vai se tornar simbólico, pois agora ele é um vínculo que irá existir dentro de você com aquela pessoa que você amava e que agora você não vai ver por aí.

O grande pedaço ou o grande percurso desse luto, como parte muito difícil é o silêncio. Porque você não ouve mais a voz da pessoa que você ama. E a outra parte bem difícil desse processo, desse trajeto é que você não irá se ver mais projetado(a) nos olhos dela. Então quando a gente ama muito alguém, nós olhamos para essa pessoa e nos realizamos a partir do olhar dela. A gente pensa, eu sou legal, eu sou incrível, sou muito importante porque ela me olha desse jeito. E eu preciso desse olhar para eu me sentir eu mesmo e quando essa pessoa parte você não tem mais esse olhar. Você não vai ter mais esse encontro e não vai ouvir mais a voz dela te orientando, te acalmando ou te dando bronca. Isso é uma parte muito desafiadora para esse processo do luto. No entanto quando você consegue se reencontrar através do amor que você tinha por essa pessoa e que essa pessoa tinha por você, o tempo depois do luto é um tempo renovado. É um tempo onde você é mais do que você sozinho(a) sem aquela pessoa dentro de você.

Nesse trajeto do período de luto a gente sabe que existe um grande risco de adoecimento em várias dimensões. Então se você estiver no período de luto, a primeira coisa que precisa observar é que cai muito a sua imunidade. Você poderá pegar mais resfriado, mais gripe, sinusite, infecção urinária… Você fica mais distraído com chance de cortar o dedo quando vai picar cebola. Corre o risco de não olhar o retrovisor e tem chance bater o carro ou, de simplesmente atravessar a rua sem saber se está seguro ou não.

A gente fica distraído do mundo para ficar com a atenção mais plena na nossa dor. Quando você passa pelo processo de luto você tem muita dificuldade de completar tarefas simples. Você começa alguma coisa e não consegue terminar como gostaria.
A gente não tem um grande respeito da sociedade frente ao luto. As pessoas olham para você e sem saber o que dizer, falam que você tem que reagir. Não é? A vida continua. E aí as pessoas falam mais outras bobagens do tipo; foi melhor assim. Descansou! Estava sofrendo muito; a vida é assim. Deus quis assim. São palavras vazias que até machucam a pessoa que está no período de luto.

Então eu penso que a melhor forma de você atravessar esse luto é saber que você vai se transformar numa pessoa mais completa e, não uma pessoa mais vazia. Porque quando você reestabelece esse vínculo de amor com essa pessoa (agora por dentro de você), isso te deixa mais forte. Ela não está mais no quarto de hospital, ela não está mais longe de casa, ela não está passando frio, ela não está com dor. Ela está dentro de você em um lugar super seguro, em sua mente, em seu coração. E você consegue manter esse contato com essa pessoa porque você é aquilo que ela acreditava que você era. Então você simplesmente o é; não tem mais dúvida disso. Com isso, seu olhar se abre para novos projetos e realizações.

E para as pessoas que vão ficar ao lado de alguém que está no processo de luto, o mais importante é saber fazer silêncio estando presente. Você está do lado da pessoa e diz a ela que ela pode contar contigo. Seja para ir ao mercado fazer um sacolão, seja para limpar a casa, ou levar o cachorro passear. Seja para fazer um mingau de Maizena para ela. Tudo de mais importante que eu posso fazer por alguém que está no processo de luto diz respeito à minha presença. E essa presença é incondicional. Se eu puder ficar com você 5 minutos, dois dias ou uma semana, todo esse tempo eu tenho que oferecer a minha presença como algo que possa fazer a diferença nesse tempo para a pessoa. Mas ao final, esse processo todo é muito bonito, apesar de muito doloroso. Porque nessa reconstrução você se descobre em alguns momentos quase que feliz por ser quem você é, ter se tornado quem se tornou e ter sido amado por aquela pessoa enquanto ela esteve na sua vida.

Texto de Ana Cláudia Arantes, adaptado sobre a importância de se enlutar.

Compartilhe nas suas redes sociais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *